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Monsenhor Raimundo

Monsenhor Raimundo Gomes Barbosa, o apóstolo do Trairi.

Sua biografia

Nasceu em Macau, 27/11/1923, filho de José Gomes Barbosa e Cândida de Paiva Barbosa.

Atendendo ao chamado Divino, no dia 03 de fevereiro de 1938, ingressou no Seminário São Pedro aos 14 anos de idade, em Natal. Estudou Filosofia e Teologia no Seminário em Fortaleza, onde recebeu o Sub-Diaconato e o Diaconato. No dia 04 de dezembro de 1949, consagrou-se a Deus pela Ordenação Sacerdotal na Catedral de Nossa Senhora da Apresentação, em Natal; e, quatro dias depois, celebrou a primeira missa na matriz de Nossa Senhora da Conceição, em Macau.

Paróquias por onde passou: iniciou sua ação sacerdotal na cidade de Santa Cruz, como Coadjutor do Vigário Padre Alair Vilar Fernandes de Melo, de Janeiro a Junho de 1950. Em seguida, foi transferido para Lajes (Itaretama) e encarregado de João Câmara e Santana de Matos; depois, para Canguaretama, Pedro Velho, Ceará Mirim e Santo Antônio, voltando para Santa Cruz no dia 28 de fevereiro de 1965, sendo encarregado de Coronel Ezequiel, assistindo também as cidades de Campo Redondo, São Bento e Lajes Pintadas.

Títulos: MONSENHOR, concebido pelo Papa João Paulo I, e VIGÁRIO EPISCOPAL, Região Sul, pelo Arcebispo Metropolitano Dom Heitor de Araújo Sales.

Curso: CATEQUESE, realizado no Chile, na Universidade Católica de Santiago, de março a outubro de 1965.

Atividades exercidas: Secretário de Educação do Município de Santa Cruz, nas gestões dos Prefeitos José Rocha e Hidelbrando Teixeira, e Diretor do Ginásio Comercial de Santa Cruz.

Cargo/Função: Diretor do Instituto Cônego Monte, fundado em 05 de junho de 1944.

Em Santa Cruz, o seu paroquiato durou cerca de 35 anos. Mesmo depois de sua renúncia, uma vez que o código de direito canônico prevê que aos 75 anos o padre precisa renunciar, ele permaneceu morando em Santa Cruz como pároco emérito. Desta forma, sua história foi marcada por um grande legado de santidade de vida e de profunda dedicação à vida social e comunitária.

Depois de 15 dias internado na Casa de Saúde São Lucas, em Natal, Monsenhor Raimundo faleceu às nove horas e quinze minutos do dia 07 de outubro de 2005. Além de outras complicações que afetaram sua saúde, um problema pulmonar foi a causa de sua morte. Durante a sua estadia na Casa de Saúde São Lucas, onde esteve acompanhado do Pe. Aerton e de sua família, eu ia visitá-lo todos os dias.

Seu funeral foi preparado com muita dignidade pelo então pároco, Pe. Aerton Sales, a quem tive a graça de acompanhar e ajudar em todos os momentos. Vale destacar que, em certo momento, ao ser indagado sobre onde gostaria de ser sepultado, respondeu: “Escolhi Santa Cruz. Quero ficar lá.” Atendendo ao pedido, seu corpo foi acolhido na entrada da cidade de Santa Cruz, com a presença de um grande número de fiéis, os quais aguardavam o seu féretro conduzido pelo carro do corpo de bombeiros que, após passar por todos os bairros da cidade, foi sepultado na Igreja Matriz de Santa Rita de Cássia.

O Padre Religioso

O homem é, por natureza e por vocação, um ser religioso. Porque provém de Deus e para Ele caminha, o homem só vive uma vida plenamente humana se viver livremente sua relação com Deus. O homem é feito para viver em comunhão com Deus, no qual encontra sua felicidade: “Quando eu estiver inteiramente em Vós, nunca mais haverá dor e provação; repleta de Vós por inteiro, minha vida será verdadeira” (Santo Agostinho., Conf. 10,28,39).

Encontramos, em Mons. Raimundo, um homem de uma religiosidade profunda, como aquele que, de fato, faz a ponte entre Deus e os homens. Na sua vida e vocação, entre os santacruzenses, constatamos uma pessoa humana que viveu profundamente do evangelho e para o evangelho. A sua simplicidade, a maneira de se vestir e a sua maneira de celebrar a eucaristia e de dar Deus aos outros nos fazem afirmar: convivemos com um padre santo. O seu ir e vir à porta da sacristia rezando o santo terço, diariamente, manifestava o seu amor e zelo profundo pela Bem-aventurada Virgem Maria. Lembro-me de que o monsenhor Raimundo nos contava sobre a sua devoção original à Nossa Senhora da Conceição, trazida de sua terra natal, a cidade de Macau, e afirmava que o povo de Santa Cruz o tinha ensinado a amar Santa Rita de Cássia.

Diz-nos um documento conciliar do Vaticano II: “Fique bem claro que todos os fiéis, qualquer que seja sua posição na Igreja ou na sociedade, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade.” (LUMEN GENTIUM). A história de Santa Cruz se entrelaça com o testemunho de um padre que exalou, por sua maneira de viver, o odor da santidade, uma santidade encarnada.

O Padre da Educação

O padre “cizudo”, para quem não o conhecia de perto. Na verdade, era um mestre do saber. Na “Escola do Padre”, o antigo Instituto Cônego Monte, onde tive a graça de estudar ao longo da minha vida inteira, aprendi a lição da pontualidade, pois ele era “britânico”: não admitia atrasos dos alunos e estava sempre no portão a nos observar. Era um exímio poliglota e muitos tiveram a graça de aprender uma língua neolatina com ele: o francês. O Monsenhor Raimundo estava sempre na escola observando se os alunos estavam atentos às aulas; a sua passagem “pra lá” e “pra cá” nos corredores do colégio marcavam a sua presença sempre ortodoxa de proceder com a disciplina dos professores e alunos. Todos o respeitavam e temiam. O seu jeito impunha um respeito, mas o seu espírito de solidariedade e preocupação social através da educação, como nos diz um dos pressupostos do método Paulo Freire, era “a ideia de que ninguém se educa sozinho. A educação, que deve ser um ato coletivo, solidário, um ato de amor, sem ser imposta.”

O legado do padre educador está ligado às suas origens. Desde a sua educação doméstica, iniciou o aprendizado das primeiras letras com D. Ana dos Prazeres Avelino, sua mãe de criação e, depois, com Edinor Avelino, em uma escola particular. Foi para o Seminário de São Pedro, em Natal, onde foi matriculado em 2 de fevereiro de 1938, fazendo ali o curso secundário. No Seminário de Fortaleza, fez os cursos superiores exigidos para a vida sacerdotal. Tudo isso nos faz entender o quanto era importante a educação no seu projeto, deixou-nos o legado de alguém que acreditava na Educação como redenção, reprodução e transformação da sociedade.

O Padre das Causas Sociais

Há um texto bonito do Padre jesuíta Adroaldo Palaoro que diz assim: “o cuidado é gesto amoroso para com o outro, gesto que protege e traz serenidade. Cuidar é envolver-se com o outro, mostrando zelo e preocupação. Mas é sempre uma atitude de benevolência que quer estar junto, acompanhar e proteger. Quer conhecer o outro com o coração e não com a cabeça”. Podemos dizer isto claramente do Mons. Raimundo quando nos recordamos, por exemplo, do fato da enchente que trouxe grande devastação ao povo de Santa Cruz. Pois, naquele dia 01 de abril de 1981, ao receber o telefonema sobre o ocorrido, tocou os sinos e, através do sistema de som externo da Igreja Matriz, avisou à população sobre a catástrofe que se aproximava. Tomou inúmeras iniciativas de socorro ao povo que sofria com a enchente, oportunizando abrigos. Esteve presente, junto ao povo, nessa hora sofrida, assim como uniu forças junto às autoridade governamentais para favorecer políticas públicas. Foi graças à doação do terreno da paróquia que o governo pôde construir as casas para os desabrigados pela enchente onde, hoje, está localizado o bairro Conjunto Cônego Monte.

Quanto à sua vida de pastor, ainda recordamos um testemunho citado nas reuniões do clero de Natal sobre quando, no exercício evangelizador, chegou a fazer visitas aos lugares de prostituição em Santa Cruz, com o intuito de levar o evangelho às mulheres que se vendiam aos prazeres carnais, muitas vezes, para sustentar o lar. “Em verdade vos digo que os publicanos e as prostitutas vos precederão no Reino de Deus” (Mt 21, 31).

Lembramos o seu espírito profético quando, no advento das eleições para o governo do estado de 1998, Monsenhor Raimundo Gomes Barbosa expôs a famosa faixa na frente da igreja: “Água sim, voto sim. Água não, voto não!”. Quantas críticas foram levantadas por causa desse discurso. Mesmo assim, ele permaneceu firme, unido ao seu grande amigo Mons. Expedito Sobral. Juntos, foram responsáveis por despertar no povo a luta pela água, em Santa Cruz e interior do RN. Quantas reuniões e debates com a presença das autoridades, tudo a fim de prover a água, pois o povo padecia pela seca. Lembro-me da chegada da água em Santa Cruz: um carro pipa em frente à igreja matriz prenunciava a riqueza de ter água doce em nossas torneiras. Do sorriso do Monsenhor, da sua alegria em ver o seu povo feliz, recordo-me vivamente. Como canta a Irmã Míria Kolling, no CD “Um grito pela Vida”, é necessário aumentar o volume do nosso grito pela vida sofrida de tantos trabalhadores que querem trabalhar e recuperar a própria dignidade e a de suas famílias: “Um grito pela vida tão sofrida, quero ouvir! Milhares de outras vozes solidárias vão se unir! No grito, a dor e o pranto do canto-libertação! Esse grito ressoou nos ouvidos do Monsenhor que, no altar do sacrifício, entregou a Deus e Ele não foi indiferente ao clamor do seu povo.

Um Santo entre nós – “O apóstolo do Trairi”

Os santos nos ensinam que o caminho da santidade é construído no cotidiano da nossa vida. Ser santo é ser gente. O padre Raimundo Gomes Barbosa, com o seu jeito introspectivo, ortodoxo e, ao mesmo tempo, sereno, nos ensinou que santo é quem faz da vida um altar do amor. Ele não deixou de celebrar a Santa Missa um só dia da sua vida. Mesmo na folga, lá estava subindo ao altar para oferecer o Santo Sacrifício da Missa, como reza o rito tridentino: “Introibo ad altare Dei, ad Deum qui lætificat juventutem meam.” (Subirei ao altar de Deus, do Deus que alegra a minha juventude.)

Tive a grata satisfação e alegria de ter convivido com esse homem de Deus. Através do seu testemunho sacerdotal, fui chamado por Deus para a sublime missão de Sacerdote do Altíssimo. Recordo-me das muitas vezes em que participei da Santa Missa desde a minha primeira comunhão, na capela de Nossa Senhora das Graças. Nunca perdi uma só missa. Depois, respondendo ao convite das Irmãs Filhas do Amor Divino, ingressei no grupo de coroinhas quando pude estar ainda mais perto do Monsenhor, servindo a Jesus na pessoa do Sacerdote. Das suas mãos, recebi os sacramentos do Batismo, Penitência, Eucaristia e Crisma. Acompanhei-o por diversas vezes às missas nas comunidades, íamos de pampa (na carroceria) ou de parati. Quanta alegria a minha de, na infância, ter tido a graça de acompanhá-lo. Lembro com emoção que, na Missa do seu jubileu de ouro Sacerdotal, na sacristia, o Mons. Expedito me indagou; “você quer ser padre?”, e eu respondi: “Quero sim!”.  Guardo em meu breviário o santinho de sua festa, no qual estava escrito: “a paróquia é um reflexo do padre”. As suas homílias eram exímias e persuasivas e, ao mesmo tempo, muito simples. Era um catequista junto ao seu povo. Lembro-me de um momento hilário: depois de uma reunião do clero, em Natal, o Monsenhor passou pelo Carrefour para fazer umas compras. Ao chegar em frente à porta automática, disse sorrindo: “Abra-te, sésamo!”, e sorrimos juntos. Ele era um ser humano extraordinário. Lembro-me do testemunho dos padres idosos, de quando falava de “Raul”, dos momentos em meio ao clero, da descontração. Como era aquele que tinha sempre uma anedota a contar, no intervalo das reuniões, todos estavam a esperá-lo.

Esse arauto do Evangelho voltou para Deus, de onde viera, e hoje intercede por nós, santacruzenses. Aqui, deixou-nos um legado de amor e obediência à Igreja, de zelo pelos menos favorecidos, de devoção sincera e filial à Nossa Senhora e à Santa Rita de Cássia. Podemos constatar que os santos atingiram a santidade porque viveram a vida com todas as consequências da caminhada: erros e acertos; alegrias e tristezas; luzes e trevas. O sacerdote que conviveu conosco exalou o odor de Cristo e, por isso, somos testemunhas de que sua história de vida se entrelaça com uma história de fé e desenvolvimento social, educacional e cultural, econômico e político da cidade de Santa Cruz.  Saudades eternas do “Apóstolo do Trairi”.

Texto de Pe. Fábio Pinheiro Bezerra (Filho de Santa Cruz, de Santa Rita)
Fotos do Acervo da Paróquia de Santa Rita de Cássia
Publicado na Revista O Roseiral 2019
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